Rabisco

Fiz um rabisco vermelho no papel.

Um rabisco de um homem morto,

rabisco de meu desejo torto.

 

É agora que me deparo com o rabisco vermelho,

com o rabisco azul, rabisco amarelo…

Cores que estão no mundo, agora estão no meu papel.

 

E agora eu descubro que dessas cores, não sei nada.

Vou procurar saber, que nem alma penada,

para um dia, enfim,

não engajar-me na hora errada.

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Catavento

Tudo que é meu está guardado,

lacrado em caixas,

envolto por papel bolha e pedaços de isopor

mofado.

 

Inflexivelmente maduro,

constato que ainda não senti o mundo,

e o mundo é a Sensação.

 

Não tenho mãos para segurá-la,

pois as tenho em meu peito, em minhas costas,

em meus rins, em minha perna, no joelho,

 

no meu corpo de chumbo,

feito para afundar num mar insosso.

 

Eu imploro ao mundo uma vida sem sono,

onde a calmaria esteja presente

mesmo na ausência do sonho.

Sem o escapismo de minha cama,

sem o apelo de quem clama

por mais uma parcela de minha alma sonolenta.

 

Apelo das formalidades,

clamores que cobram o progresso.

Que progresso?

Afinal, eu só tenho a cidade e um amor,

e meu amigo, um carro,

mas ambos possuímos a mesma infelicidade

provinda da costela e do barro.

 

(fadado ao anonimato)

 

Sou só um homem perdido no momento,

com um bocado de palavras e um catavento.

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INVIDIA

 

 

Talvez se lembrasse da luz do escritório

tangendo os passos que não dou

no coração que bate as teclas.

 

Vou abrindo um livro qualquer

Um poeta qualquer

Um colaborador qualquer

Umas meias palavras

Um meio leitor.

 

E parece que minha dor é qualquer também.

(e parece que não há e nem sou o único a ser qualquer)

 

Podem escolher pra esta poesia qualquer fim.

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O Hiperbóreo e o Escritório

Subiu de elevadoruma certa hemiplegia

E o ambiente era errôneo de tudo

Mas os erros faziam dali o lugar

E o lugar fazia dali os seres,

Das linhas retas

Nasciam homens retos

Traçando caminhos tortos

Nas teclas , nas gavetas, nos rabiscos

Nasciam amores das 6 às 18.

 

E o sol contemplava tudo,

Em sua imensidão se contentava em aparecer na janela

Em algumas eram homens bárbaros

E suas esposas prenhas,

Nos sonhos

Dos engravatados e das secretárias.

 

Parte do fluxo corrente meu sangue esquenta

E o escritório vive

Enpastorado, enpastorando.

 

Não viviam ali heróis

Não cresciam ali povos nem guerras nem romances

Era o café

O papo

Bom dia

Até.

 

A grande Ilíada da promoção

As reuniões de Dante e seu inferno

As grandes gravatas de Kafka

E a Odisséia do Happy Hour.

 

(E no escritório não se ouvia mais nada, além dos gritos dos mudos desesperados)

 

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Há quanto tempo tabacarianos?!

Enfim, graças a nova rotina terei tempo de sobra pra ler e escrever, voltarei a postar as boas e velhas poesias de “perdida esperança”, se elas tiverem traços Kafkianos ou de Schopenhauer ignorem, e interpretem por vocês.

Obrigado.

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CONCLUSÃO

(A cobra morde o próprio rabo)

 

Poeta bom é poeta com dinheiro no bolso.

Poeta bom é poeta com nomes e livros no sebo.

Poeta bom é o cão que rói o osso do povo

E sabe que o sofrimento vem para ganhar.

Poeta bom tem cargo de secretário e sabe com as pessoas falar.

Poeta bom tem para si a palavra como psicose.

 

(Os versos caem e descem pelo ralo)

 

Menino que é bom não escreve,

Fecha o livro no meio e faz pressão contra o chão

Para tentar tirar latido do cão moribundo que tange a alma.

 

Deixa-se engolir pelo dragão,

Enquanto a idade anoitece…

O menino bom, que fecha os livros

E esmurra as paredes.

 

(Ainda vai ouvir o canto do galo)

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PASSEIO

(hipóteses na distância)

 

Na praça, quieto, eu observo.

(O que observas, servo da imagem?)

 

Só observo, sem objeto,

Sem nenhum dejeto em minha alma.

 

Poderia marcar o tempo, mas o tempo me abandona.

Poderia sentir o vento, mas sou intangível.

Poderia fugir da chuva, mas a chuva parou.

Poderia anotar os pensamentos, mas eles sumiram.

Poderia escrever um poema, mas não tenho licença de poeta.

 

Então poderia sentir o corpo? mas o corpo se desmanchou.

Poderia observar as mulheres, enquanto corpos,

Mas elas só passam e rebolam seu significado.

Poderia cumprimentar os homens,

Mas apertos de mão remetem-me a desunião.

Poderia ouvir o sino, mas não tenho o mesmo ouvido de menino.

Poderia observar o carro, o helicóptero, o avião,

Mas eles não formam uma canção.

Poderia olhar o celular, mas ele não me diz nada.

Poderia abraçar o Mundo, mas o Mundo fugiu de mim.

 

No o passeio, poderia dar “Oi” para muita gente,

Mas prefiro ser esse sol poente.

 

Essa distância corrói,

Dói que dói,

Dói que destrói,

Essa minha falta de contato,

Esse meu defeito no tato,

Meu hiato sentimental.

 

Enfim, não observo nada,

Não mergulho na SENSAÇÃO.

 

Jogam-me um pão duro no meio da praça

E dou-me de comida aos pombos.

Sem caneta na mão, sem sentimento no rosto,

Deitado para não dar hipótese aos tombos.

 

(Você precisa passear)

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Lamento

(dois movimentos no canto do pensamento)

 

À Rubens Pai

 

I

 

Não temos mais lamento (triste contradição),

Temos cimento.

Cimento para resguardar os limiares

Que nos separam da plenitude, da inegável paz.

 

Temos gavetas e não mais terra

Para separar o homem, já fragmentado por si só,

De seus semelhantes que experimentam o silêncio absoluto.

 

(O silêncio grita entre as árvores de nossa superfície)

 

O grande não encontrará terra,

O pequeno não encontrará terra,

Mas ainda, nas gavetas em que residem,

Encontrarão a imensidão de sua não mais existência.

 

(Ainda assim cantam, nas nuvens da lembrança)

 

 

II

 

A imagem do homem de óculos (tanto o desconheço),

Espírito sepultado em concreto,

Sempre levantará da tumba da memória,

Puxado pelas correntes da lembrança que descem

O abismo obscuro dos que já se foram.

 

(Ainda assim, descanse em paz, não quero perturbá-lo)

 

A imagem levantará como se fosse sólida,

Mesmo que só um vapor do pensamento

Sublimado pelas vagas lembranças da perda.

 

Levantará grave, nítida como uma foto na parede,

Para lembrar a terra que faltou sobre seu corpo,

O carinho que faltou, o respeito que faltou,

O amor que não teve tempo para ser compartilhado.

 

Cobrará, repousando sua mão mansa

Sobre minha cabeça,

As lágrimas que estão por vir,

Da dor que as vezes penso não ter o direito de sentir.

 

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(Truco truquinho que sou, mesmo sem palavras o bastante na boca,

divido essa parcela de meus sonhos contigo)

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Arquivado em Sigmafreu de Andrade