PASSEIO

(hipóteses na distância)

 

Na praça, quieto, eu observo.

(O que observas, servo da imagem?)

 

Só observo, sem objeto,

Sem nenhum dejeto em minha alma.

 

Poderia marcar o tempo, mas o tempo me abandona.

Poderia sentir o vento, mas sou intangível.

Poderia fugir da chuva, mas a chuva parou.

Poderia anotar os pensamentos, mas eles sumiram.

Poderia escrever um poema, mas não tenho licença de poeta.

 

Então poderia sentir o corpo? mas o corpo se desmanchou.

Poderia observar as mulheres, enquanto corpos,

Mas elas só passam e rebolam seu significado.

Poderia cumprimentar os homens,

Mas apertos de mão remetem-me a desunião.

Poderia ouvir o sino, mas não tenho o mesmo ouvido de menino.

Poderia observar o carro, o helicóptero, o avião,

Mas eles não formam uma canção.

Poderia olhar o celular, mas ele não me diz nada.

Poderia abraçar o Mundo, mas o Mundo fugiu de mim.

 

No o passeio, poderia dar “Oi” para muita gente,

Mas prefiro ser esse sol poente.

 

Essa distância corrói,

Dói que dói,

Dói que destrói,

Essa minha falta de contato,

Esse meu defeito no tato,

Meu hiato sentimental.

 

Enfim, não observo nada,

Não mergulho na SENSAÇÃO.

 

Jogam-me um pão duro no meio da praça

E dou-me de comida aos pombos.

Sem caneta na mão, sem sentimento no rosto,

Deitado para não dar hipótese aos tombos.

 

(Você precisa passear)

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