Arquivo da categoria: Caio

Catavento

Tudo que é meu está guardado,

lacrado em caixas,

envolto por papel bolha e pedaços de isopor

mofado.

 

Inflexivelmente maduro,

constato que ainda não senti o mundo,

e o mundo é a Sensação.

 

Não tenho mãos para segurá-la,

pois as tenho em meu peito, em minhas costas,

em meus rins, em minha perna, no joelho,

 

no meu corpo de chumbo,

feito para afundar num mar insosso.

 

Eu imploro ao mundo uma vida sem sono,

onde a calmaria esteja presente

mesmo na ausência do sonho.

Sem o escapismo de minha cama,

sem o apelo de quem clama

por mais uma parcela de minha alma sonolenta.

 

Apelo das formalidades,

clamores que cobram o progresso.

Que progresso?

Afinal, eu só tenho a cidade e um amor,

e meu amigo, um carro,

mas ambos possuímos a mesma infelicidade

provinda da costela e do barro.

 

(fadado ao anonimato)

 

Sou só um homem perdido no momento,

com um bocado de palavras e um catavento.

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CONCLUSÃO

(A cobra morde o próprio rabo)

 

Poeta bom é poeta com dinheiro no bolso.

Poeta bom é poeta com nomes e livros no sebo.

Poeta bom é o cão que rói o osso do povo

E sabe que o sofrimento vem para ganhar.

Poeta bom tem cargo de secretário e sabe com as pessoas falar.

Poeta bom tem para si a palavra como psicose.

 

(Os versos caem e descem pelo ralo)

 

Menino que é bom não escreve,

Fecha o livro no meio e faz pressão contra o chão

Para tentar tirar latido do cão moribundo que tange a alma.

 

Deixa-se engolir pelo dragão,

Enquanto a idade anoitece…

O menino bom, que fecha os livros

E esmurra as paredes.

 

(Ainda vai ouvir o canto do galo)

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PASSEIO

(hipóteses na distância)

 

Na praça, quieto, eu observo.

(O que observas, servo da imagem?)

 

Só observo, sem objeto,

Sem nenhum dejeto em minha alma.

 

Poderia marcar o tempo, mas o tempo me abandona.

Poderia sentir o vento, mas sou intangível.

Poderia fugir da chuva, mas a chuva parou.

Poderia anotar os pensamentos, mas eles sumiram.

Poderia escrever um poema, mas não tenho licença de poeta.

 

Então poderia sentir o corpo? mas o corpo se desmanchou.

Poderia observar as mulheres, enquanto corpos,

Mas elas só passam e rebolam seu significado.

Poderia cumprimentar os homens,

Mas apertos de mão remetem-me a desunião.

Poderia ouvir o sino, mas não tenho o mesmo ouvido de menino.

Poderia observar o carro, o helicóptero, o avião,

Mas eles não formam uma canção.

Poderia olhar o celular, mas ele não me diz nada.

Poderia abraçar o Mundo, mas o Mundo fugiu de mim.

 

No o passeio, poderia dar “Oi” para muita gente,

Mas prefiro ser esse sol poente.

 

Essa distância corrói,

Dói que dói,

Dói que destrói,

Essa minha falta de contato,

Esse meu defeito no tato,

Meu hiato sentimental.

 

Enfim, não observo nada,

Não mergulho na SENSAÇÃO.

 

Jogam-me um pão duro no meio da praça

E dou-me de comida aos pombos.

Sem caneta na mão, sem sentimento no rosto,

Deitado para não dar hipótese aos tombos.

 

(Você precisa passear)

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MEIO DE TRANSPORTE

Minhas idéias vão de carroça e o mundo vai de trem bala.

 

O ônibus foi feito para levar o homem pela solidão

e sua janela feita para separar uma mão da outra mão.

 

O bonde não está mais presente para se ver as pernas.

O velho morreu e já podem acender as velas.

 

O avião foi feito para os sonhos dos homens caírem em terra.

 

O astronauta olha tudo pelo espaço de sua mente,

onde seu foguete desliza pelo infinito num voo indecente.

 

O tanque eu não sei para o que serve além de meio de destruição.

 

O barco está lá para ser levado pela maré.

 

O trem anda e diminui minha tensão.

Fica cheio, aperta os corpos e me faz sentir teu coração.

 

Não sei andar de bicicleta para despistar a tristeza,

de patinete eu andei pelos meus tempos de pureza.

 

Parece que o carro foi feito para o homem solitário

não cair em prantos.

 

(O meu Amor eu levo a pé por todos os cantos)

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DENTRO DO HOMEM

(Uma breve despedida!)

Dentro do homem
Há outro homem,
Um macaco
E um instinto a pulsar.

(Ah, ele insiste em negar!)

Dentro do homem
Há uma mulher sem face,
Um esboço pronto para amar,
Desculpa para chorar.
Uma cobra cega,
Pronto para seu veneno alastrar.

Dentro do homem
Há Eu e outros prisioneiros.
Egoísmo, livros, ressentimentos.
Há um Mundo e alguns fios,
Imperceptíveis,
Para dominá-lo.

(Algoz do lápis e da caneta)

Dentro do homem,
Homem maldito,
Há uma licença poética
Para se acovardar.
Tirar o corpo das desgraças
Que ele próprio insiste em causar.

(Pobre poeta, mais pobres são minhas intenções)

Há, dentro do homem,
Algumas palavras bonitas
Para aliviar a culpa.
Nenhuma realidade para ser dita,
Só remoída de algum folheto
Ou livro nojento.

Dentro do homem, minha gente,
Por mais que ele fale e escreva,
Não há nada.
Não, não há nada dentro desse homem.
Só outras mentiras, qualquer mentira,
É isso que há dentro do homem.

(Adeus homens, enfim, enfim, enfim!)

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HOMENS E SEUS MONSTROS

Essa cidade precisa de armas.

Essas armas precisam de chumbo,

Que, por sua vez, encontrar-se-ão com carcaças vazias,

Mas tão macias…

 

Atirem, homens!

Atirem, poetas!

Não errem… Não se distraiam

Com um mero movimento de olhar,

Com a piscada mecânica ou com o morder dos lábios.

Muito menos com lágrimas de colírio.

 

Atirem para acertar,

Aproveitem enquanto a pele desses monstros

Arde em um gozo estrondoso.

Vamos, poupem uns aos outros desse escárnio.

Poupem os inocentes dessa peste!

Não idealizem…

Não tirem o sono do vizinho por pura comoção,

Trocar de olhares, descuidado tocar de mãos,

Roçar de malícia nua, inocência despida de intenção,

Loteria de paixão.

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O PÁSSARO E O NADA

(ando pela cidade)

O pássaro canta

Na cidade ensolarada.

A cidade é grande

E não se ouve nada.

 

O passado canta

Na cidade abandonada.

Dentro de mim há o meu tormento

E minha tragédia está armada.

 

Aqui nesse meu lugar tudo se transforma.

Não se perde o pássaro, nem a cidade.

O nada se agrega ao nada e toma forma.

Forma do meu caminho, forma da minha perdição.

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